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quinta-feira, 18 de junho de 2020

Sons da Manhã


SONS DA MANHÃ

Notas de vida entram pela janela da sala
Junto com os tímidos raios de sol
De uma manhã ainda incipiente.

Os chilreios e trinares que me acordam
Entoam uma nova canção, portuguesa,
Dos longes da minha infância
Aprendida na cozinha da minha mãe:
Onde esses pássaros a ouviram?

O barulho do motor do carro
Inconfundível depois da inundação
Me dá adeus e se vai
Levando consigo o marido 
Para mais uma jornada.

Folhas são varridas
E o risc risc risc recolhe também
Restos da minha solidão
Que teimam em cair diariamente.

Alguém ouve Benito Di Paula
Uma improvável canção
Para meu improvável sorriso
Nesta quarentena.

Vizinhas se cumprimentam
Conversam nas janelas lado a lado
Sem conseguirem se ver.
E compram o pão de cesta
Trazido pelo carreteiro:
Novos hábitos...

Disputo com a Leia
O lugar aquecido do sofá
Ela levanta as orelhas repentinamente
Capta movimentos inaudíveis para mim:
Outros sons de uma manhã
Que teima em acontecer
Sorrateira e normal.

KLARA RAKAL
18/06/2020


sábado, 12 de maio de 2018

Um avião na praça


Atravessa a praça uma criança
Puxada pela mão da mãe com pressa
Mas ela olha, vira o corpo e se contorce
Para olhar o mais que possa
O imponente avião no pedestal.

Um pássaro pousa na sua asa
Que ironia! Uma asa
Que não voa, ele fica ali à toa
Não tem alforria

A tarde observa, divertida.
Embora sem nenhum alarde,
Espera paciente o seu fim.
Não se importa! A vida é assim...

A criança enxota o pássaro
Com o seu olhar compriiiiido
Nunca vira avião igual,
Nunca vira um avião...

Em frente à vila militar
Não há pista, não há pouso
(Há o céu... mas o azul está tão longe...)
Ele continua o seu repouso
Sem justificativa!

Está planando, flutuando de mentira
Preso ao pedestal de concreto
Quem sabe por decreto
Do ilustre Brigadeiro
O avião não ganha passageiro?
Só a infantil fantasia
Numa curiosidade sem fim
Transforma o avião-metade
Em avião de verdade.

A tarde morre sem adeus.
Disso entende a passarela:
Pois todos passam por ela
Ninguém fica...ninguém fica...

Cai a noite
Fria e dura como um açoite
Na praça, nenhum cidadão
Para dar boa noite ao avião.

Só mendigos que observam seu contorno
Enquanto forram com papelão
O banco-dormitório

E rezam ao deus alado
Ao deus parado
Cobrem-se com sua sombra-altar
A base é o oratório
Mas também é mictório

Decola em sonhos o avião
Enquanto isso
Carros passam, omissos,
Pela estrada do Galeão.

Klara Rakal
Karla Antunes



Fotos tiradas em 2017, a praça estava abandonada, suja, sem manutenção.

Poema criado em 2017 especialmente para um dos "Abraços" promovido pelo Polo Cultural Ilha em comemoração aos 450 anos da Ilha do Governador.

terça-feira, 31 de janeiro de 2017

A PEDRA


Foto do arquivo pessoal.

O gato permanece em cima da pedra
e não medra.

Em cima da pedra lisa
ele paralisa
o tempo...

Na pedra redonda
fica o felino;
será que pensa no seu destino,
enquanto vem a onda?

Pedra dos Amores
ou das Dores?

Gato do mato,
a pedra emoldura seu retrato...
Em quanto tempo
a cena dura
daquele ato
vira candura?

Gato maracajá
que ali está
fiel
enquanto a tarde arde
e as estrelas se acendem
no céu...

Será que um dia
a bela índia
volta
e o gato se solta
desse muito-amar?

Na pedra da fenda
eterniza-se a lenda
dessa moça...

Ouça!
O gato virou a onça
que tanto olha para o mar.


KLARA RAKAL
21.01.2017

Foto: Ilha Carioca

Poema escrito especialmente para o 1º evento comemorativo do aniversário de 450 anos da Ilha do Governador: o ABRAÇO à PEDRA da ONÇA, organizado por Gilberto D'Alma e Marcelo Mendes. Neste dia, houve exposição de quadros, aulão na praça de Tai Chi Chuan, com Adriano Soares, dança do ventre FUSION com Verônica Arruda e o violão de Marcelo Mendes, entre outros. Os poemas foram lidos e embalados pela deliciosa brisa marinha num dia de céu aberto e calor. Poetas participantes: KARLA ANTUNES, ADRIANO SOARES, JEANE FONTES e MAURÍCIO ANDARILHO.

Foto do arquivo pessoal.

Leia sobre o evento em:


sábado, 10 de setembro de 2011

Depois veio a adolescência



DEPOIS VEIO A ADOLESCÊNCIA

O lugar onde vivo
é uma ilha
por ela tenho sentimentos de filha.

Filha malcriada
e às vezes insana,
quando quero ir pro Centro
e me percebo insulana.

Mas no retorno,
depois da ponte do Galeão,
respiro aliviada:
estou em casa.

Nasci aqui.
Na pracinha vi chegar Papai Noel
quando eu tinha cinco anos
(era um tempo sem desenganos).

Meu pai plantou dois paus-brasis
numa rua já muito enfeitada
por ipês.

Depois respondeu aos porquês
que insistente fiz:

Por ser português de pátria
e brasileiro de coração,
ele cultivou essas mudas
e até hoje as presenteia.

– um pedido de desculpas? –

Como meu pai,
a Ilha plantou em mim
muitas amendoeiras...
Por isso eu era assim:

livre de culpas
felicidade correndo na veia.

Mas cresci
e vi muros crescerem
grades se multiplicarem
ouvi muitos casos contarem...

Saudade da época
em que dormíamos no quintal da frente
muro baixo, manta sobre a grama rente
nas noites de imensurável calor.

O dia tinha horas a mais
eu as gastava admirando o mar
apoiada na beira do cais.

Bicicleteava pela Ilha inteira
em tempos de inocência...
Do Moneró até a Ribeira.

Depois... veio a adolescência...

Assim era a Ilha do Governador.

Muita coisa mudou,
mas devo à Ilha
o que hoje sou...
agosto 2011

Amigos! Preciso compartilhar com todos vocês a alegria de ter sido premiada em 1º lugar no I Concurso Temático de Poesia realizado na Casa de Cultura Elbe de Holanda, com o poema Depois veio a adolescência, na noite de ontem. Dediquei o prêmio ao meu pai, que hoje passou por um procedimento cirúrgico e colocou 4 pontes de safena; tudo correu bem até o momento, ele está no pós-operatório, no Hospital de Laranjeiras. Agradeço à minha amiga Rosiene e ao meu filho Pedro, que me acompanharam e torceram muito! E a todos os meus amigos e familiares, que sempre me incentivam muito!
Um beijo grande a todos!
Karla Soares Antunes,
em 10 09 2011.