Mostrando postagens com marcador solidão. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador solidão. Mostrar todas as postagens

domingo, 6 de outubro de 2024

Teu olho tem um brilho

Teu olho tem um brilho

De sol refletido

— São olhos de mil sóis!

E os meus olhos sós

Procuram os teus

Que, no entanto,

Só me dão adeus...

 

Poema do livro

Rastro de Salamandra, VillarLuna, 2017.

Escrito na minha mocidade


ANTES QUE EU ME ESQUEÇA...

Muitos anos se passaram, mas aquela cena exata, enquadrada pelo meu sentimento, nunca esqueci. O moço estava de pé, todo vestido de branco (era graduando de odontologia), e estávamos rompendo o namoro. 

No meu peito, um aperto, pois eu era muito apaixonada por ele... havia uma tristeza no ar, de ambas as partes. Naquele dia, não houve discussão. Só um sentimento de... nem sei dizer. Vida em suspenso, indefinição... solidão.

Eu estava sentada no degrauzinho do portão de casa, na rua Haia, então tinha um ângulo de visão peculiar. Quando, de repente, um raio de sol, desses fugidio, alcançou bem os seus olhos castanhos, fazendo-os quase ficar cor de mel... havia, sim, doçura naquele olhar, mas também uma frieza, difícil explicar, só a poesia talvez consiga se aproximar do que vi e senti naquele momento.

Entrei e, em vez de chorar, escrevi... sim, chorei depois. Mas registrei em palavras o que daquele dia mais ficou tatuado na minha memória.

Depois reatamos, casamos, tivemos filhos e... muita coisa aconteceu nas nossas vidas, boas e más. Nos divorciamos, a vida deu tantas voltas, mas nós não nos reencontramos mais. Nem amizade ficou, só mágoas... 

Chorei muitas vezes mais, tantas, que desconfio quase secaram minhas lágrimas. Hoje, é muito difícil eu chorar.

*A foto traz um olho feminino, mas não importa: foi a imagem mais aproximada que encontrei daquele olho "de mil sóis"...


quinta-feira, 18 de junho de 2020

Sons da Manhã


SONS DA MANHÃ

Notas de vida entram pela janela da sala
Junto com os tímidos raios de sol
De uma manhã ainda incipiente.

Os chilreios e trinares que me acordam
Entoam uma nova canção, portuguesa,
Dos longes da minha infância
Aprendida na cozinha da minha mãe:
Onde esses pássaros a ouviram?

O barulho do motor do carro
Inconfundível depois da inundação
Me dá adeus e se vai
Levando consigo o marido 
Para mais uma jornada.

Folhas são varridas
E o risc risc risc recolhe também
Restos da minha solidão
Que teimam em cair diariamente.

Alguém ouve Benito Di Paula
Uma improvável canção
Para meu improvável sorriso
Nesta quarentena.

Vizinhas se cumprimentam
Conversam nas janelas lado a lado
Sem conseguirem se ver.
E compram o pão de cesta
Trazido pelo carreteiro:
Novos hábitos...

Disputo com a Leia
O lugar aquecido do sofá
Ela levanta as orelhas repentinamente
Capta movimentos inaudíveis para mim:
Outros sons de uma manhã
Que teima em acontecer
Sorrateira e normal.

KLARA RAKAL
18/06/2020


quarta-feira, 1 de fevereiro de 2017

O Pescador e a Ilha

O Pescador e a Ilha - imagem de Luiz Bhering

O PESCADOR E A ILHA

A ilha observa o pescador jogar sua linha
Lá no fundo...
E suspira, profundo.
O mar ao redor se oferta.
Nuvens se confundem com a espuma das ondas que quebram.
O tempo quase para: pra que a pressa de correr?
No final alguém há de morrer:
O peixe será o alimento
Que justifica a paz desse momento...

KLARA RAKAL
31.01.2017

Com admiração para o poeta das imagens: Luiz Bhering

domingo, 28 de junho de 2015

Um novo amor

       
          Como é que um amor nasce
          Dentro de um coração desiludido?

          Enquanto espera
          E se desespera
          Permanece vazio

          E depois, de tão cansado
          De esperar, fica leve,
          Adormecido.

          E aí, num qualquer lugar,
          Sente-se iluminar,
          Mas não entende o motivo.

           Procura ao lado
           E encontra um olhar
           Sorri e se acanha

           Fica calado
           Não consegue se acalmar
           Em suores se banha

          Sente-se encantado
          Espantado
          E feliz:
          É tudo o que tanto
          Quis!

          Os olhares se cruzam
          Se acompanham
          E se despedem
          Em silêncio:

          Promessa
          De um próximo
          Momento.

          Klara Rakal

          Poema escrito em 16 01 2002, hoje recontextualizado... mas não é o que estão pensando! Meu "velho" amor continua firme e mais forte que nunca!!! Dedico a outras pessoas...

domingo, 10 de agosto de 2014

E essa lua toda

Foto by Flávia Chapetta, tirada em 10.08.14 - Superlua


                       E essa lua toda
                     Cheia, no alto
                     Do céu, como uma dama
                     Gorda, de salto 
                     E chapéu...

                     Essa lua me olhando
                     Tanto, e calada a me contar
                     O seu drama, enquanto
                     Eu, cansada, pensando
                     Se a quero desvendar...

                    A lua pede, solitária,
                    Um alguém que a console;
                    Mas eu, nessa trama vária,
                    Com sede e sem, o corpo 
                    Mole, me esquivo:

                    Ah, lua, eu também,
                    Como uma dama nua,
                    Te peço e suspiro:
                    Me envolve em teu véu,
                    Teu vestido de céu, e vem...
                    – És o espelho em que me miro!

Poema criado em uma noite de lua como essa, talvez não super, mas tão intensa como a de hoje Lembrei do poema, pois o sentimento que agora trago é o mesmo de outrora...

24 04 2002
Klara Rakal

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013

Pela janela


Pela janela,
vejo o verde aprisionado
lá fora.

Aqui dentro,
a liberdade também é pequena:

há grades nas emoções,
e são tão densas
e duras quanto as da janela.

Mas, as grades formam estrelas...

À noite, a luz do poste
as imprime na parede
da sala

enquanto o resto se cala.

Tudo são só impressões,
sombras, projeções?

Palpável, só a minha sonolência.

04/09/2010 

Com preguiça de fotografar minha janela, uso a foto roubada da Renata Araújo.

(Poema publicado por culpa da Renata Araújo, 
que por coincidência tem estrelas na janela 
e, certamente, também as tem no coração...)


Agora, completo a postagem com a foto da minha janela; a que me alimenta a alma com suas estrelas...

A luz de setembro invadindo minha sala-vida...

domingo, 6 de novembro de 2011

Solidão depois


          SOLIDÃO DEPOIS

          A pior solidão é aquela
          que a gente sente quando
          se espera alguém.

          É a ausência.

          Só há ausência se houve,
          um dia,
          a presença (avassaladora, de alguém).

          A lágrima é morna.
          Mas só por um instante.
          O vento a esfriou.

          A coisa de que eu tenho mais medo,
          agora sei,
          é a solidão.

          Pensava que era a morte,
          mas não: o pior da morte
          é a solidão depois.

          Meus olhos agora ardem
           – secos! –
          com o vento que esfriara
          a lágrima.

          Ela não existe mais...
          Ficou só o vazio...

Poema selecionado, mas não premiado no III Concurso de Poesias da Biblioteca Municipal  Euclides da Cunha (Cocotá). Muitos poemas de alta qualidade literária e belíssimas interpretações. Tema livre.


               -foto do arquivo pessoal-
               -imagem pesquisada no google-

sexta-feira, 20 de maio de 2011

Naufrágio


NAUFRÁGIO

A madrugada avança
tua imagem
em minha mente dança:
viagem.

Passado recente
e ainda tão
reticente...

(Solidão)

Saudade
do que não teria
fim:
a tempestade
ainda arde
dentro de mim.


Pois,

Teu olho azul
de mar, bússola febril,
apontava o sul
do meu quadril.

E tuas caretas
de prazer eram certezas
como setas
a nos apontar
metas
a nos desviar
das correntezas...

(Teriam sido incertas?)


Ei, uma gaivota
sobrevoou.
Pega o leme!
Acerta a rota!
Mas teu furor
não notou...

Presságio.

Nada parecia frágil
transbordamos vagas
cortamos ventos
construímos sagas
em nossos momentos...

Mas os faróis,
luzes de alarde,
mais do que mil sóis
diziam: já é tarde
para nós dois.



Onde está o porto
o norte, a ponte,
o monte,
a sorte, onde?

Naufrágio.

- imagens pesquisadas no google -

Poema premiado e publicado na coletânea POESIA NA ESCOLA - 2003, da Secretaria Municipal de Educação do Rio de Janeiro, categoria Profissionais da Educação.

sábado, 14 de maio de 2011

Lágrimas


LÁGRIMAS

Há um ralo
dentro do meu peito
de onde escoam
dissabores
de sabores vãos.

De tantos feitos
só me sobraram
defeitos
que me acompanham
na solidão.

Tudo vaza...
Pinga, respinga...
Tudo se esgota!

Em que gota
se perdeu minha razão?

- imagem pesquisada no google -


domingo, 10 de abril de 2011

Azzaro

AZZARO

Dorme comigo hoje, eu disse.
Se consentisses...

Tu não vieste.
Não faz mal:
finjo que estás, afinal.

Renda preta,
Sensual (era pra ti)
Taças de vinho
tinto.

Nelson Gonçalves.

No sofá me deito
O lábio entreaberto
(agora, me beijarias)

Me oferto.

Olhos cerrados
Uma leve pressão
(sobre o meu corpo estarias)

Uma doce tontura
Cheiro de Azzaro
Arrepio na nuca

Contigo faço amor
como nunca.

Outro poema antigo: escrevo desde sempre...
27/dezembro/2001

imagem pesquisada no google


quarta-feira, 30 de março de 2011

Tuas ávidas mãos


                                                    

Tuas ávidas mãos

Tuas ávidas mãos
Como pássaros são
Sobrevoando
O meu corpo
(pouco corpo)
Há vida em tuas mãos

Tuas ávidas mãos
Como pássaros são
Imaginando
O meu pouco corpo
Oferecer grãos
À vida de tuas mãos

Tuas atrevidas mãos
Como pássaros são
Pousando
Sobre o meu corpo
(louco corpo)
Ávido por tuas mãos

Tuas ávidas mãos
Como pássaros são
Adivinhei-as dando
Sobre o meu corpo
O último sobrevoo
Antes da solidão...

Não há vida sem tuas mãos...


21-10-2004
Momento do passado, de extrema dor e solidão...

imagem pesquisada no google


Poema premiado e publicado na coletânea POESIA NA ESCOLA - 2004, da Secretaria Municipal de Educação do Rio de Janeiro, categoria Profissionais da Educação.

sábado, 12 de março de 2011

Tímida

 TÍMIDA

Descobri que sou tímida
Tenho medo de falar pros outros
O que falo pro papel: converso
Com as letras, faço verso
E rimo minha confusão.

Minha voz já se tornou tinta
Escorregadia, da caneta que me guia.

Assim eu me abro,
Começo e não paro,
Feito cachoeira
Feito lágrima de perda
Feito batida de coração.

Tenho um talento adormecido,
Porém latente
E enfurecido
Dentro de mim.

Esse talento é tão somente
Necessidade: desabafar com alguém,
– Ninguém...
Desabafo pra mim,
E minha poesia sai assim...

Quem me vê não alcança minh’alma
Quem me lê se engana:

Eu sou tão profundamente
Que, quando minha luz se apagar,
Já será dia.

Poema premiado e publicado na coletânea POESIA NA ESCOLA - 2001, da Secretaria Municipal de Educação do Rio de Janeiro, categoria Profissionais da Educação.