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terça-feira, 14 de janeiro de 2014

Encanto

(inspirada na sonoridade do poema TANTA TINTA, de Cecília Meireles)

A menina tenta
espantar seu pranto.
Tenta tanto!
Num momento
inventa
um encanto...
Espanto!
O seu canto lento
como a voz do vento
num triste lamento
canta tanto!

(Em 1988. Quando eu tinha 25 anos a menos que hoje.)

Esta postagem se deve ao fato de eu ter publicado no FB esse poema, após revisitar em áudio os poemas de "Ou isto ou aquilo", de Cecília Meireles. Tudo culpa da colega de profissão e área, Else Emrich.
Abaixo, o poema:

 TANTA TINTA

Ah! menina tonta, 
toda suja de tinta
mal o sol desponta!

(Sentou-se na ponte, 

muito desatenta...
E agora se espanta: 
Quem é que a ponte pinta 
com tanta tinta?...)

A ponte aponta

e se desaponta. 
A tontinha tenta 
limpar a tinta,
ponto por ponto 
e pinta por pinta...

Ah! a menina tonta! 

Não viu a tinta da ponte! 

Cecília Meireles



domingo, 8 de abril de 2012

Poeminha (irônico) de Páscoa



Poeminha (irônico) de Páscoa

Coelhinho da Páscoa
que trazes pra mim?
Viagem a Lisboa,
ramo de jasmim?

Da Páscoa, querido
coelhinho, que trazes?
Televisor colorido,
vídeo de rapazes?

Trazes o quê,
gentil coelhinho?
Vestido chiquê,
champanha ou vinho?

Coelho dos ovos,
pra mim, que surpresa?
Sapatos novos,
título de princesa?

Coelho sapeca,
que trouxe, me diga?!
Talvez, quem dera,
uma boa amiga?

Coelhinho da Páscoa, que trazes pra mim?
Um ovo, dois ovos, três ovos assim...

KLARA RAKAL
29.03.91

Ainda muito atual...

(Poema publicado na coletânea de poesias de profissionais da Secretaria Municipal de Educação do Rio, em 1993 - 1ª vez participando do concurso.)

- imagem colhida no google -

sexta-feira, 17 de junho de 2011

Autorretrato

                                     AUTORRETRATO

                         Não sou mais aquela imagem
                         no retrato revelada
                         de sorriso puro
                         a face lisa
                         a testa clara, desnuda
                         de rugas, a boca muda
                         o olhar fitando o nada...

                         Agora sou outra, invertida
                         sou a imagem finda
                         velha, empoeirada, distorcida
                         e já sem muita coragem
                         para a vida.

                         Klara Rakal

Poema criado em 1992, em um laboratório de produção de textos poéticos, ministrado pela poetisa, mestra e doutora Graça Cretton, na UFRJ, parafraseando Cecília Meireles. Abaixo, o poema de Cecília (desculpem a intimidade!), grande poetisa, fonte inesgotável de inspiração!



Retrato

Eu não tinha este rosto de hoje,
assim calmo, assim triste, assim magro,
nem estes olhos tão vazios,
nem o lábio amargo.

Eu não tinha estas mãos sem força,
tão paradas e frias e mortas;
eu não tinha este coração
que nem se mostra.

Eu não dei por esta mudança,
tão simples, tão certa, tão fácil:
— Em que espelho ficou perdida
a minha face?

Cecília Meireles

- imagem pesquisada na internet -

domingo, 5 de junho de 2011

Exílio Hoje

Vida de Passarinho - Caulos.

EXÍLIO HOJE               


               Minha terra tinha palmeira,
               pau-brasil, ipê, laranjeira
               onde, um dia, cantaram sabiás
               e outras aves igualmente raras.

               Minha terra tinha céu
               com lindas e numerosas estrelas,
               tinha várzeas com flores exóticas,

               tinha bosques e até amores!
               (O que é mesmo flor?
               O que é amor?)

               Minha terra tinha sossego,
               coruja piando, vento brando
               enquanto eu cismava, sozinho,
               à noite, nos prazeres dela;
               hoje já não se pode mais,
               tem sequestradores demais!

               Minha terra tinha primores
               – flores e amores –
               que tais não encontro eu hoje...
               Ah, Deus, não permita
               que eu viva por muito mais tempo
               neste presente, sem desfrutar
               dos prazeres de antigamente!

- imagem pesquisada na internet-

Poema publicado na Coletânea de Poemas dos Profissionais da Secretaria Municipal de Educação do Rio de Janeiro, edição de 1997.
Paráfrase do poema Canção do Exílio, de Gonçalves Dias, que reproduzo abaixo:

CANÇÃO DO EXÍLIO
 (Gonçalves Dias)
Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o Sabiá;
As aves, que aqui gorjeiam,
Não gorjeiam como lá.
Nosso céu tem mais estrelas,
Nossas várzeas têm mais flores,
Nossos bosques têm mais vida,
Nossa vida mais amores.
Em  cismar, sozinho, à noite,
Mais prazer eu encontro lá;
Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o Sabiá.
Minha terra tem primores,
Que tais não encontro eu cá;
Em cismar –sozinho, à noite–
Mais prazer eu encontro lá;
Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o Sabiá.
Não permita Deus que eu morra,
Sem que eu volte para lá;
Sem que desfrute os primores
Que não encontro por cá;
Sem qu'inda aviste as palmeiras,
Onde canta o Sabiá.