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sábado, 6 de abril de 2024

O quanto não basta

No fim do dia é que percebo o quanto não me bastei.

 Preciso de um outro amanhã...
 
     ... que baste para eu me encontrar
 
     ... que baste para eu digerir a crueldade do mundo
 
     ... que baste para entender que a finitude é uma benção
 
     ... que baste para eu ser corajosa o bastante          para perceber
         que cada instante deveria ser o suficiente         para bastar
 
(e assim o amanhã não precisaria mais chegar).


KLARA RAKAL

domingo, 7 de maio de 2023

Climatério

Garota em frente ao espelho
Pablo Picasso, 1932

O que vejo diante do espelho?

Além daquilo que se vê?

Se o que foi visto não é essência?

 

É só aparência?

 

Riscos, sulcos, rugas, rusgas do tempo

                                       que passa por mim

 

Fecho os olhos mas a imagem permanece

Tatuada no reflexo

Da memória dos esquecidos

Aquecidos pelo nexo da permanência

 

O que fenece é matéria artéria deletéria histeria

 

Neurastênica nunca fui boa na arte cênica

Revelo desvelo se visto a túnica da ciência

Sexo complexo amplexo êxodo de mim

 

Espelho, espelho meu

Existe mais perplexa que eu?

 

KLARA RAKAL

08.01.2023

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2017

O Pescador e a Ilha

O Pescador e a Ilha - imagem de Luiz Bhering

O PESCADOR E A ILHA

A ilha observa o pescador jogar sua linha
Lá no fundo...
E suspira, profundo.
O mar ao redor se oferta.
Nuvens se confundem com a espuma das ondas que quebram.
O tempo quase para: pra que a pressa de correr?
No final alguém há de morrer:
O peixe será o alimento
Que justifica a paz desse momento...

KLARA RAKAL
31.01.2017

Com admiração para o poeta das imagens: Luiz Bhering

sábado, 1 de fevereiro de 2014

Praia Seca

I


Mais uma vez diante dela: a Lagoa
de Araruama é o seu nome.
E que nunca mais me abandone...
Estou ficando apaixonada
Acostumada com seus humores
- ondas, vento e casuarinas,
sua areia fina, o tempo
lento, por onde anda
aquele sofrimento?
Aqui nada importa mais.
Aqui encontro a paz.
22 01 2014


                                                   II



Ah, esse presente de Deus!
A Lagoa prateando minh'alma
com esse vento - sudoeste? - forte:
hoje é ela que decide meu destino.
Dá um recado tão claro,
impossível não entender...
(A natureza é a dona do mundo.)
As ondas impositivas não se cansam de dizer,
incessantes:  não pare, continue, seja forte,
resiliente e paciente, até a morte
ou até a mudança de sorte.

Hoje é a Lagoa que decide meu destino
Então, embaixo assino.
24 01 2014

- fotos do arquivo pessoal -

sábado, 10 de agosto de 2013

Sobre ridículos, batatas, silêncios e decisões

     Ando muito ridícula.
     Não consigo me lembrar se já coloquei sal nas batatas que estão cozinhando. Olho pra elas longamente, nada me dizem. Só devolvem o olhar.
     Enquanto faço janta, penso.
     Turbilhão na minha aparente calma. Muito apreensiva. Calo.
     Tenho me calado mais do que o normal e muito mais do que o necessário. Meu caçula tagarelando, perguntando, pedindo... Ouço a voz, mas não distinguo as palavras. Até que, por fim, ele conclui:
     - Mãe, você tá congelada?
     Os nuggets, merda! Corro ao forno. Não, alívio, não viraram carvões. Mas passaram do ponto.
     Congelada. Sim... tenho estado... Mas meu pensamento ferve. Como não queria estar me sentindo assim. Não, não estou satisfeita, querem saber os inquisidores. Eu que calo tanto, tenho a vontade de gritar: chega! Estou cansada.
     Onde pus os óculos? Não enxergo o suficiente para procurá-los. Recorro ao caçula que, se não tivesse apenas seis anos, juraria estar debochando:
     - Estão aqui, mãe... - Só faltou o tsc tsc.
     Tsc tsc. A reprovação na fala de colegas que nem conheço pessoalmente. Eles não sabem que existo, mas já me chamaram de burra, de preguiçosa, indiferente, satisfeita. Sinto uma pressão...
     Ah! É uma barba recém-feita na minha nuca. Segundos de bem estar...

     Tinha marcado a dentista. Quinta-feira, final da tarde letiva. Escovei os dentes e passei fio dental, tomando cuidado para não ser vista. Nunca quero ser surpreendida passando o fio dental: minha gengiva sangra. Apressada, envergonhada, a sala repleta de discussões, ordens do dia, opiniões contra e a favor. Pode ter parecido que me esquivei, mas juro, dentista às dezoito. Falo pra alguém que sequer olhou pra mim "tchau, tô com pressa, vou ao dentista" e saio.
     Subo e desço a rua, mas não era aqui? Escuro já, atrasada, obras sem fim no Jardim Guanabara, mas que relevo filho da puta. Mal enxergo. Vão pensar que me furtei ao convívio do politizado momento - penso. Dezoito e trinta quase, desisto. Penso em ligar para a dentista, mas onde diabos fica seu consultório? Sem créditos. Pego o retorno mais próximo.
      Ouço Calcanhoto no rádio do carro "eu perco o chão eu não acho as palavras eu ando tão triste eu ando pela sala eu perco a hora eu chego no fim eu deixo a porta aberta..." É a dela ou é a minha voz que canta? Confundimo-nos.
     Resignada. Calada. Em casa agora. Caderninho aberto com o telefone da dentista e a anotação da consulta marcada: 07/08, quarta. Heim? "...eu não moro mais em mim."
     Congelada, sangrando, indecisa, atrasada em um dia. Eu ando muito ridícula. Nem confessei para o Facebook, aquele f azul com certeza riria de mim.
     Termino o purê. Aproveito para amassar, apunhalar, aniquilar as batatas. Alguém tem que pagar por tanta angústia dentro do meu ser. (Lembro-me de um poema há muito esquecido: "Angústia dentro do meu ser". Credo! É melhor que fique esquecido!)
   
     Provo as batatas, sabor deliciosamente realçado pelo sal no ponto, apesar do massacre. Me parecem resignadas, eu diria contentes, até.
     Nem tudo está perdido: eu não salgara as batatas, enfim.
     Nem tudo está perdido.

Em 09/08/2013, aderindo à greve dos professores do Município do Rio de Janeiro.

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013

Pela janela


Pela janela,
vejo o verde aprisionado
lá fora.

Aqui dentro,
a liberdade também é pequena:

há grades nas emoções,
e são tão densas
e duras quanto as da janela.

Mas, as grades formam estrelas...

À noite, a luz do poste
as imprime na parede
da sala

enquanto o resto se cala.

Tudo são só impressões,
sombras, projeções?

Palpável, só a minha sonolência.

04/09/2010 

Com preguiça de fotografar minha janela, uso a foto roubada da Renata Araújo.

(Poema publicado por culpa da Renata Araújo, 
que por coincidência tem estrelas na janela 
e, certamente, também as tem no coração...)


Agora, completo a postagem com a foto da minha janela; a que me alimenta a alma com suas estrelas...

A luz de setembro invadindo minha sala-vida...

segunda-feira, 28 de janeiro de 2013

Itacuruçá


     Olhos e ouvidos abertos
     sentindo a paz
     que vem do marulhar
     constante
     como se tudo fosse acaso
     e errante.

     Fundo, inspirando o ar

     perfumado de ondas
     leves...
     O mar que me traz
     e se quiser me leve...
     E breve.

     Ao longe, um barquinho

     se ocupando da rede,
     que puxa... puxa...

     É uma pintura.

     Olho e escrevo.
     Sorvo e rimo.
     Ouço e sorrio.

     A vida está suspensa 

     nesse momento
     e é tão boa essa pausa.

     Nada pensa. 

     Nenhum movimento.

     Só aquilo que há muito

     não se faz:

     Olhos e ouvidos abertos

     sentindo a paz.



     Itacuruçá
     Sábado, 19/01/2013, às 7:30h

Poema premiado e publicado na coletânea POESIA NA ESCOLA, de profissionais da Secretaria Municipal de Educação do Rio de Janeiro, concurso de 2015.


terça-feira, 26 de abril de 2011

O Rio Roncador - Sampaio Correia - RJ



















O RIO

I
O rio corre, paciente e decidido.
Os caminhos são sempre os mesmos...
Muitos obstáculos...

Mas a vida não é um espetáculo,
respeitável público!
Por que tenho de vencê-los, todos?

Aprendo com o rio,
contorno as pedras, apenas.
Sigo em frente.
Quem me condena?




















II
O rio não para; seu caminho
foi traçado.
Com passividade extrema, obedece.
Ninguém o condena.
Ele se fortalece.

Mas meu caminho é apenas
um traço
(quase apagado...)
Para obedecê-lo,
tenho de aprender a enxergar...

Muitos me condenam,
me mandam parar
Aperto os olhos para recomeçar...



III
O rio é que nem meu coração:
acelerado.
Bate desesperado
não ouve ninguém
não para nem
quando se sente cansado.

O rio é que nem meu coração
é uma canção eterna:
para o ausente, é um sussurro;
para o presente, é como um urro
De dor, de prazer?
Depende de como me vê...



















IV
Aqui, sozinha,
sentada nessa pedra,
sentindo o frio
que me provoca a água desse rio,
meu coração não medra:
estremece, se arrepia,
mas não se arrepende
sequer de um dia!


Klara Rakal
23.04.2011
Rio Roncador
Sítio da Bebé
Sampaio Correia RJ

- imagens do acervo pessoal -

sábado, 2 de abril de 2011

Quero andar nu

                                                                                        
Quero andar nu
(para Renato F. Marques)

Quando as pessoas deixarem cair as máscaras
que lhes cobre o rosto o desgosto e o gosto
do estragado
do estranho (mal tragado)
daquilo que não tem mais tamanho,

quando elas de fato caírem
e pudermos ver as faces realmente se abrindo
sorrindo

livres de todas as cargas os pesos
toda a ferida sem pus
(embora conservando as cicatrizes)

aí  então estaremos verdadeiramente nus
(e seremos completamente felizes).


(Lendo o poema de Renato T. Marques no Recanto das Letras, veio-me na mente esse poema todo, pronto, como uma resposta – às 21:20h do dia 22/03/2011)

imagem pesquisada no google