quarta-feira, 28 de fevereiro de 2024

PALAVRAS AO TEMPO











Numa manhã fresca

de um dia qualquer

escreva com pó de giz

palavras ao tempo


Num campo aberto

— caderno natural —

salpicada de sol

intermitente

flutua a pauta

impermanente


Escrever é preciso

o tema não é preciso


Ouça as lições da manhã

perene professora

a música do nascer do dia

nos ouvidos permanecerá


Passarinhos alinhavam

a inspiração final

a tinta fluida do despertar

desamarra os pensamentos

voam


Escrever é preciso...


KLARA RAKAL

poema escrito em 21.01.2024

quinta-feira, 25 de janeiro de 2024

QUANTO VALE?



Quanto vale a vida, 

quanto vale?


Se a lama cobre

se a vila some

se o vale acaba?


Quanto vale a vida, 

quanto vale?


Se a vala abre

se nada sobra

se tudo cala?









Se a Vale mata,

quanto leva?


Não importa

o que se revele,


em quem resvala?


Quanto vale a vida, 

quanto vale?


Se a vela apaga, 

não importa o quanto vele,

o destino sela.


A alma, a morte leva,

mas não a lava.


KLARA RAKAL



HOJE, 25 DE JANEIRO DE 2024, COMPLETAM EXATOS 5 ANOS DA TRAGÉDIA EM BRUMADINHO, MG.

ROMPIMENTO DA BARRAGEM DO FEIJÃO, COM APROXIMADAMENTE 300 MORTES E FORTE IMPACTO AMBIENTAL. 

NÃO PODEMOS ESQUECER!


Poema publicado no livro SEMÁFORO ESCANGALHADO NO AMARELO — em estado constante de alerta poético, 2023, edição da autora, disponível para venda (para adquirir, envie mensagem para o  e-mail klara.rakal2011@gmail.com)

quinta-feira, 11 de janeiro de 2024

POEMA DO FEIJÃO


Ela estava catando feijão
e tirava as pedrinhas,
mas percebeu que também excluía
todos os feijões diferentes:

as descascados,
os separados em metades,
os enrugados,
os descorados,
os cortados,
os deformados,
os de cor diferente.

Foi separando e se angustiando.

Fez mentalmente uma comparação com a sociedade atual:

— não é isso que todos os dias se faz?

Ela juntou tudo de novo no alguidar
e cozinhou o feijão
mais justo de todos os tempos.


Poema publicado no livro SEMÁFORO ESCANGALHADO NO AMARELO — em estado constante de alerta poético, 2023, edição da autora, disponível para venda (para adquirir, envie mensagem para o  e-mail klara.rakal2011@gmail.com)

domingo, 7 de maio de 2023

Climatério

Garota em frente ao espelho
Pablo Picasso, 1932

O que vejo diante do espelho?

Além daquilo que se vê?

Se o que foi visto não é essência?

 

É só aparência?

 

Riscos, sulcos, rugas, rusgas do tempo

                                       que passa por mim

 

Fecho os olhos mas a imagem permanece

Tatuada no reflexo

Da memória dos esquecidos

Aquecidos pelo nexo da permanência

 

O que fenece é matéria artéria deletéria histeria

 

Neurastênica nunca fui boa na arte cênica

Revelo desvelo se visto a túnica da ciência

Sexo complexo amplexo êxodo de mim

 

Espelho, espelho meu

Existe mais perplexa que eu?

 

KLARA RAKAL

08.01.2023