sexta-feira, 17 de junho de 2011

Autorretrato

                                     AUTORRETRATO

                         Não sou mais aquela imagem
                         no retrato revelada
                         de sorriso puro
                         a face lisa
                         a testa clara, desnuda
                         de rugas, a boca muda
                         o olhar fitando o nada...

                         Agora sou outra, invertida
                         sou a imagem finda
                         velha, empoeirada, distorcida
                         e já sem muita coragem
                         para a vida.

                         Klara Rakal

Poema criado em 1992, em um laboratório de produção de textos poéticos, ministrado pela poetisa, mestra e doutora Graça Cretton, na UFRJ, parafraseando Cecília Meireles. Abaixo, o poema de Cecília (desculpem a intimidade!), grande poetisa, fonte inesgotável de inspiração!



Retrato

Eu não tinha este rosto de hoje,
assim calmo, assim triste, assim magro,
nem estes olhos tão vazios,
nem o lábio amargo.

Eu não tinha estas mãos sem força,
tão paradas e frias e mortas;
eu não tinha este coração
que nem se mostra.

Eu não dei por esta mudança,
tão simples, tão certa, tão fácil:
— Em que espelho ficou perdida
a minha face?

Cecília Meireles

- imagem pesquisada na internet -

domingo, 5 de junho de 2011

Exílio Hoje

Vida de Passarinho - Caulos.

EXÍLIO HOJE               


               Minha terra tinha palmeira,
               pau-brasil, ipê, laranjeira
               onde, um dia, cantaram sabiás
               e outras aves igualmente raras.

               Minha terra tinha céu
               com lindas e numerosas estrelas,
               tinha várzeas com flores exóticas,

               tinha bosques e até amores!
               (O que é mesmo flor?
               O que é amor?)

               Minha terra tinha sossego,
               coruja piando, vento brando
               enquanto eu cismava, sozinho,
               à noite, nos prazeres dela;
               hoje já não se pode mais,
               tem sequestradores demais!

               Minha terra tinha primores
               – flores e amores –
               que tais não encontro eu hoje...
               Ah, Deus, não permita
               que eu viva por muito mais tempo
               neste presente, sem desfrutar
               dos prazeres de antigamente!

- imagem pesquisada na internet-

Poema publicado na Coletânea de Poemas dos Profissionais da Secretaria Municipal de Educação do Rio de Janeiro, edição de 1997.
Paráfrase do poema Canção do Exílio, de Gonçalves Dias, que reproduzo abaixo:

CANÇÃO DO EXÍLIO
 (Gonçalves Dias)
Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o Sabiá;
As aves, que aqui gorjeiam,
Não gorjeiam como lá.
Nosso céu tem mais estrelas,
Nossas várzeas têm mais flores,
Nossos bosques têm mais vida,
Nossa vida mais amores.
Em  cismar, sozinho, à noite,
Mais prazer eu encontro lá;
Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o Sabiá.
Minha terra tem primores,
Que tais não encontro eu cá;
Em cismar –sozinho, à noite–
Mais prazer eu encontro lá;
Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o Sabiá.
Não permita Deus que eu morra,
Sem que eu volte para lá;
Sem que desfrute os primores
Que não encontro por cá;
Sem qu'inda aviste as palmeiras,
Onde canta o Sabiá. 



sábado, 4 de junho de 2011

Graça

              
                     Tantos cansaços
                     nos adiam
                     Tantos laços
                     nos atam aos dias
                     Tudo se esvai, tudo passa,
                     menos o meu amor por você,
                     Graça.

                     Tantos passos
                     se tornam tardios
                     Tantos espaços
                     vazios
                     Tantos cigarros no meu maço
                     Tudo é difícil, tudo escassa,
                     menos o meu amor por você,
                     Graça.

                     Tantos atropelos e dificuldades
                     Tantas surpresas no espelho
                     Fatalidades
                     Tudo nos refreia
                     e ultrapassa
                     Mas nada ameaça
                     o meu amor por você,
                     Graça.

O poema foi escrito em 2001, mas te amo desde sempre, irmã.

*imagem capturada no álbum do orkut de Graça*

domingo, 29 de maio de 2011

Poemas para Liane

             Para Liane Conhecer-se

       Se umas qualidades observo no dia a dia,
       Outras tento adivinhar, e as imagino;
       Mas, se em algo eu errar,
       Me perdoa,
       Que tu não és fácil de desvendar:

       Curiosa, persistente, decidida,
       Inteligente, racional, objetiva,
       Perspicaz, sagaz, possessiva,
       Bem-humorada, alegre
       E fiel àquilo em que acreditas.

       Tudo em ti é
       Definição: preto no branco,
       Claridão, prontidão.
       Não há fingimentos,
       Não há espaço para a hesitação.


             Para Liane (Re)conhecer-se

       Tua rigidez é só casca.
       Defesa?

       Somente uma mascarazinha de proteção
       Que quase engana; mas tua armadura
       Às vezes sucumbe a um frágil
       Abridor de latas acompanhado de um sorriso...

       Tanto sentimento aí dentro
       És explosiva sim,
       Intensa,
       Mas muito longe da bruxa
       Como insistes em te rotular.

       Tu não és tão racional assim,
       Tens um pouco de sonhadora
       Senão, não serias professora!

       Passeias com tua morenice
       Às vezes salpicada de pó de giz
       E, pra disfarçar a doçura, dizes:
       – Seus pentelhos!

       És boa de conselhos, que eu,
       Na minha gravidez de saber viver,
       Ouço com atenção.
       Tu serias uma ótima irmã mais velha
       Pois tens uma asa
       que inspira proteção.

       Tu és grávida demais
       Nesta tua sensibilidade de mulher...

       Aliás, a maternidade
       abriu uma fenda no teu escudo:
       Tens uma doçura tão grande
       Quando falas do Rafael...

       (Não gostaste de amamentar
       Detestaste o peso da barriga
       Mas o teu filho
       É a razão da tua vida!)

       Quem souber te desvendar
       Terá uma amiga para sempre.

06/12/1994
Liane! Querida amiga, cúmplice e confidente em longos regressos à casa, na volta do trabalho. Mas não só isso: como diz o poema, uma irmã, a quem admiro e de quem sinto muita saudade!

*imagem "roubada" do álbum do orkut de Liane*